Para não ficar pela metade, vivo minha versão inteira por meio da poesia. Eu me confesso publicamente.
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Ressurreição
O dever, que nasceu quando o filho lhe rompeu o ventre,
era fardo, forte demais.
Mais fácil abandonar as dores soltas
deixá-las trôpegas pelo caminho em busca da própria cura.
Um filho,
por primeiro e para toda a vida,
te vasculha as entranhas: não tem jeito.
Não são todas que conseguem carregar pela vida as imagens partidas de si.
Suas lentes tontas não juntam
não tocam
não cuidam.
Mas a vida é esta possibilidade viva de se ter outra mãe
Nascer de novo sem morrer, tantas vezes
até que se tenha alegria.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Dorotéia, a centopéia
Foi tão alegre a sua feitura, tão comemorada a sua chegada, que Dorotéia não se furtou de se exibir para as visitas que chegavam pelo dia das crianças. O bolo de chocolate na mesa e lá estava ela se provando nascida, me mostrando mãe. Era uma testemunha não ocular da nossa viagem, pois que seus ângulos estavam fartos em traduzir os olhos que se debruçaram para a sua produção.
Eu mais uma vez alfabetizada no brincar-vocabulário que se aprende no cotidiano da maternidade e me torna íntima da menina que deixei de ser por força da idade, mas não da imaginação.
Hoje, logo depois do almoço, recebi a seguinte ligação:
- Mãe, posso levar a Dorotéia dobradinha na mochila pra casa do meu pai?
Veio a inspiração: não há melhor poesia do que a vivência onírica de um filho. Nada é melhor do que um livro, um brinquedo construído, as cores espalhadas na mesa da sala e a força da criação.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010
É tanta coisa boa que resolvi fazer um post!
Cada coisa boa acontecendo! Muito bem:
1) Sexta agora, dia 08/10, 20h, show do Mauro Aguiar na Sala Baden Powell (Av. Nossa Senhora de Copacabana, 360)

Conheci o Mauro de uma forma muito moderna: ele me adicionou no facebook por ter visto poesia nas minhas aparecências na Internet. Depois de aceitar, descobri que ele é um grande compositor e cantautor! Comprei o seu disco Transeunte e vi que a coisa era muito mais séria do que eu pensava.... Quando ele me perguntou o que eu tinha achado o melhor do CD, escrevi uma coisa que depois foi para sua página no myspace sob o título "Opiniões sobre o transeunte que me deixaram nas nuvens":
"O melhor do CD é o CD todo. Quero dizer com isso que a sequencia de músicas, a mudança dos ritmos e temas dá uma cadência deliciosa de se escutar. Existem surpresas: você não espera que de repente apareça um fox!
O que sinto é que você respeita muito o ritmo que a ideia vem, como se a poética viesse primeiro e se vestisse de palavras e melodias. Daí você fica transparente e honra o nome dado ao trabalho.
A tua poesia é linda, vasta e farta. Dá vontade de ficar por perto pra se aquecer nas dobras e aproveitar as sobras! Passear pelos tantos universos que você apresenta.
As vozes femininas escolhidas se casam perfeitamente com as músicas... e se você pede que eu eleja uma, não farei apenas pela beleza explícita, mas por ter me caído justa e certa, na medida do que eu sinto: "os olhos da cara" é demais!!"
Pra completar, o show de sexta vai ter participação de Guinga, Paula Santoro e Cecília Stanzione. Imperdível!
2) Sexta que vem, dia 15/10, Gallo Absurdo, as 22h no Calabolço, em Vila Isabel (Felipe Camarão, 130).
Gallo absurdo é uma banda de rock instrumental realmente surpreendente. Foi surpreendente ainda mais porque conheci o Lula Washington tocando MPB no violão e, só depois, ouvi o que ele era capaz de fazer com uma guitarra junto com os outros gallos: um absurdo!
3) Larissa Sarmento é uma das Mulheres de Caio, peça em cartaz no IBAM de quinta à sábado as 21h, no Humaitá (Largo do IBAM, n.01, Rua Visconde Silva)
Mulheres de Caio é uma adaptação de 4 contos de Caio Fernando Abreu: O Príncipe Sapo, Creme de Alface, Os Sobreviventes e Dama da Noite. Tem poesia, delicadeza, humor e apresenta uma visão dramática do mundo moderno através do olhar do autor gaúcho, considerado por muitos como um “fotógrafo da fragmentação contemporânea".
Como eu conheci a Julia? A Ana Carneiro, que está trabalhando nos projetos gráficos dos meus livros, nos apresentou por skype - porque ela mora em Londres - e agora ela está fazendo as ilustrações do meu livro O PALHAÇO E A BAILARINA.
5) E para quem estiver em Salvador, tem 3 HORIZONTES na Caixa Cultural
3 HORIZONTES é um espetáculo do meu querido Cadu Cinelli e seu grupo OS TAPETES CONTADORES DE HISTÓRIA: lindo, delicado, emocionante!
sábado, 2 de outubro de 2010
A ambiquidade organizacional
Quem me apresentou o Pino, que é o Varchetta dos mais chegados, foi o Marco Dalpozzo, com quem venho tendo trocas profissionais profundas relacionadas à vida das pessoas no mundo do trabalho, além de uma amizade muito bacana.
É um prazer e um sinal dos novos tempos que este livro esteja chegando no Brasil. Pino trata os temas organizacionais com a poesia necessária para que o ser humano seja visto da forma apropriada: com sangue, suor, amor, beleza, angústia e toda a sua ambiguidade.
O lançamento deste livro será no dia 04/10 (segunda-feira) no Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro, 18h, na Sala Italia, Av. Antônio Carlos, 40 4º Andar - Centro, Rio de Janeiro.
No mesmo dia será realizado um encontro aberto a todos os interessados entre ele e a professora Sylvia Vergara, minha avó com todo orgulho! As informações para quem quiser participar deste encontro são:
Data: 04/10
Horário: das 10h às 12h
Local: UFRJ – Campus Praia Vermelha – Salão Moniz Aragão do Fórum de Ciência e Cultura (av Pasteur, 250)
Realização: Human Focus e Instituto de Psicologia da UFRJ
Entrada Franca!
Va benne! Ao prefácio escrito pelo Marco Dalpozzo:
A Fronteira da Autorrealização
É com honra que escrevo estas palavras para apresentar a última obra de Giuseppe Varchetta. Ele representa uma importante escola de estudos, pesquisa e contribuição no estudo das organizações modernas. G. Varchetta foi diretor de Desenvolvimento Organizacional e Diretor de Recursos Humanso na Unilever Itália ao longo de 30 anos até o início de 2000, para depois dedicar-se plenamente ao estudo e pesquisa organizacional. Cofundador da escola de psicossocioanálise italiana (Ariele), Varchetta se aprofunda vocacionalmente em interpretar, de forma inovadora, como a realidade e a vivência do ser humano e das organizações evoluem no tempo. Pouco conhecido aqui no Brasil e de relevante importância na Itália, apoiar a publicação deste último trabalho de G. Varchetta representa a mínima contribuição pessoal em testemunhar no Brasil esta experiência com a esperança de aproximar ulteriormente duas realidades, a italiana/europeia e a brasileira, que seguramente têm muito em comum e a aprender uma com a outra.
G. Varchetta é um denso e generoso pesquisador que desfruta da rara capacidade de estudar, se aprofundar em uma ideia e vivê-la no dia a dia organizacional seja como executivo e hoje como consultor. Sua perspectiva traz sempre um rico esforço de inovação na pouco explorada vivência emocional das pessoas nas organizações. Seus estudos e aplicações trazem novidades na relação indivíduo–organização, uma leitura pioneirística e visionária do que acontece. Ele enxerga a estética e a heurística do ser humano trabalhando. Quem teve a oportunidade de acompanhar a evolução de sua pesquisa ao longo de sua experiência humana no trabalho (veja bibliografia do autor), teve a possibilidade de adquirir uma leitura evolucionista das angústias humanas e seus impactos em nossa mais ampla realidade social. G. Varchetta encontra uma intuição ao percorrer a realidade organizacional. Com ela concebeu ao longo de anos de pesquisa teórico-prática sempre extremamente generosa um filho conceitual, originário e original, que nasce e transforma o pensar e a perspectiva organizacional.
Neste último trabalho G. Varchetta prospecta a definição e o conteúdo de uma possibilidade da existência humana da autorrealização. Após um complexo caminho evolutivo, estamos experimentando a escolha do por que somos o que somos e fazemos o que fazemos. Organizações defensivamente utilizadas hoje nos deixam impotentes frente às máquinas inteligentes que fragilizam as paredes burocrático-culturais das instituições. Seres humanos despreparados em sentir com os próprios corações são chamados a interpretar a realidade com sentimentos próprios, podendo libertar-se dos trilhos de um percurso educacional moral, pouco cientifico e imposto, podendo enxergar-se humanamente e criativamente ambíguos. A experiência da ambiguidade retomando os clássicos da escola latino-americana (José Bleger) representa uma experiência primordial como nos mostra e explica G. Varchetta. Uma experiência natural e biológica do ser humano, que nos ajuda a reaproximar nosso mundo interno com o externo e podendo assim descobrir-se muito mais tortuosos e complexos, amplos e misturados com infinitas possibilidades de caminho a escolher. O autor nos mostra como o ser em busca de sua natural expansão requer um trabalho composto de saber fazer, uma dor e esforço de parir e de querer ser deste mundo com uma presença única e original: a autoria.
Temos o desafio de nos transformarmos em seres humanitários, conscientes da experiência global em um planeta finito e nosso. A contribuição do autor é marcante em expor intensamente mais uma fronteira existente, mas não ainda claramente enxergada: de como nós indivíduos componentes desta humanidade, habitantes da mesma casa e detentores dos mesmos direitos e deveres, precisamos, em primeiro, transformar a nós mesmos e as organiza-ções nas quais atuamos, em ambientes mais conscientes de nossos mistérios, originalidades e ambiguidades.
Após a leitura desta sofisticada obra, experimentei a vontade de narrar mais uma estética da realidade organizacional que acontece densa e não ouvida e que pode mover ou bloquear as pessoas fazendo. Os resultados das empresas são feitos de olhares, sorrisos, sofrimentos, medos, desejos, vidas vivas, únicas e belas. Aprender a contá-las com a coragem desta ambiguidade admissível é uma oportunidade de dar um salto na compreensão de nós mesmos e construir organizações mais saudáveis e sustentáveis.
É fundamental, ao terminar esta introdução, agradecer as pessoas que traduziram e contribuíram na releitura desta obra não fácil. São elas: Bruno De Nicola, que tem curado a tradução do italiano; e Carla Vergara e Daniel Karrer, que com sua aprofundada releitura em busca do efetivo sentido e significado das palavras, conseguiram dar a exata dimensão de quanto o autor se esforça em comunicar e que a barreira linguística, às vezes, pode comprometer a qualidade.
Rio de Janeiro, Outubro de 2010.
Marco Dalpozzo
sábado, 11 de setembro de 2010
Influência, amor e outras divagações sobre o Caio
Caio Fernando Abreu
Caio Fernando Abreu me dá grande liberdade. Tão íntimo ele se torna, tanto me entorna que, por vezes, penso que fui eu que escrevi seus textos numa tarde clara de mim, quando posso ver o que só haveria de ser visto sem lucidez. Ele AMA - e amor é o que sinto gota a gota no espreguiçar das horas em que não consigo me expressar de tanto que amo sem cessar.
É justo com o amor que se estarreça sobre ele. Que para ele exista um caminho direto de ser dito, vivido, experimentado. É certo que a vida se amplie em seu nome, por tudo que ele é de profético na vida do homem.
Eu não acredito na não capacidade de um homem amar. Ou não aceito. Amar é tão humano quanto nascer com o sangue correndo nas veias. É essencial, existencial, fundamental, natural feito acordar, comer, movimentar, respirar.
O amor tem muitas formas e é preciso que nenhuma delas seja respeitada para que se ame sobremaneira, sobre todas as coisas, sobretudo.
É de uma nudez assustadora o que Caio fala. Cada palavra vai encontrando uma espécie de casa na nossa alma. É doido porque ele chega num nível de esclarecimento da própria dor sem perder um tico de garra de ser feliz. Sabe o peso de transgredir, mas não arreda o pé.
Está certo: cada texto segue o seu caminho no leitor que lhe dá uma chance. Quanto a mim, eu tenho esta imagem do Caio conversando comigo, acolhendo as minhas inquietações, segurando a minha mão para juntos cantarmos nas estradas da vida.
E tem mais: toda vez que eu leio o Caio me toma uma gana de escrever feito ele: frases longas e pouca pontuação para não atenuar a angústia de se confessar. A poética dele se agarra na minha, abocanha os sentimentos que estavam adormecidos nos cantos e os arranha de palavras, os beija com força.
A vida é quente no Caio. É hot. O frisson que ele me causa sempre que eu derramo os seus textos sem ressalva é o que desejo e realizo.
domingo, 5 de setembro de 2010
Construção do amor
Passo dias a pensar como serás. Não existirá passa-tempo mais desejoso, mais ansioso do que a construção do amor. Serás filha de Iemanjá? Te encontrarei na beira-do-mar? Me encontrarei na beira de chorar? Com que roupa estarás? Como serás que te vestes? Com que olhar te despes? Com que imã me imanta? Serás doida? Serás santa? Como investes o teu tempo? Para quem chega os teus tormentos?
Minha alma se lança, meu olhar de tanto rodar fica sem fôlego e sem sossego.
Ainda terás muitos anos para se esconder? Ainda terei muito engano por me deter?"
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Insight
"Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer..."
Lulu Santos e Nelson Mota
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Notícias
Bons amigos. Poucas palavras.
Meu corpo está em conforto neste momento recostado de alma.
Minha poesia está virando borboleta, para que eu possa voar com suas asas.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Vivendo a vida, ensaiando a morte
Certa vez, não faz muito, levei Sally comigo para Parati. Era feira de literatura, grande festa que há por lá. Caminhamos por entre as pedras. Tomamos cachaça. Ouvimos o que se passa na imaginação dos escritores. Fazia graça encontrar os amigos na sua companhia, porque ela é engraçada mesmo. Logo se enturma, dá os seus conselhos, mas com enorme discrição. É uma presença delicada, que nos chega pelo coração.
Outro dia ouvi desta avó a seguinte lição: “A gente deve se integrar a vida. Eu tive os meus percalços, mas sempre desejei ser feliz. E fui.” Entendi o que já tinha entendido: que ela agora se doa por nada. Profere ensinamentos como que vai deixando um pouco de si nos nossos sentimentos.
Ontem, regada de vinho, ela ensaiava morrer. “Eu vou me sentar, sentirei a morte vindo pelo meu corpo e a deixarei entrar, tomar conta de mim. Toda relaxo para ir. Lá chegando, no outro plano, serei recebida por muitos amigos. A primeira pessoa que encontrarei será o meu amado marido”. Representou com o seu corpo ao modo de quem bem entende o ciclo. O que poderia parecer macabro, veio em largas risadas comigo.
Às vezes peço que ela venha ficar com meu filho: uma alegria para mim e para os dois. Casa cheia das histórias que eles criam. Eu colho estes frutos depois.
A canja que ela sempre fez foi o meu único alimento possível na gravidez.
Assistimos juntas ao jogo da copa na arquibancada de plantas no quintal da minha mãe. Meu filho alisava sua pele marcada por 82 anos de memória feliz. As veias já saltando enquanto ela explicava que aquelas eram as provas de uma vida transitória, que terá lindos caminhos astrais. Ela sabe que o planeta humano é apenas parte dos trajetos universais.
“Uma mulher precisa vestir-se de si” - é a frase que eu intuía há alguns dias e que agora encontrou o seu lugar na velhice-criança que ela tem. Sally ensaiava a morte como quem autoriza a própria partida, por bem ter vivido a vida. Na minha lembrança, antes de ir, ela se deixa de herança. Amém.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Mais poesia do encontro com Elisa Lucinda
Neste clima, eu e minha querida turma da Casa Poema faremos mais um recital de poemas de Elisa Lucinda, seguido de um delicioso bate-papo com ela.
Dia: quarta-feira (09/06)
Horário: 20h.
Local: Casa Poema - Rua Paulino Fernandes, 15 - Botafogo
Tel: ( 21)2286-5977 / (21)2286-5976
Entrada Franca!
A casa agradece a doação de livros de poesia novos ou usados.